Cientista brasileiro que desenvolveu a interface cérebro-máquina, Miguel Nicolelis defende a reestruturação do ensino superior para atrair os jovens
Luciano Velleda – Revista Ensino Superior
Estruturar os diversos departamentos de uma universidade do mesmo modo que o funcionamento do cérebro humano. Esse é o pensamento do neurocientista Miguel Nicolelis, apontado pela revista americana Science como um dos dez mais importantes cientistas do mundo. Em recente debate na cidade de São Paulo, Nicolelis expôs seu conceito ao dizer como está montado o Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lily Safra, criado por ele em um dos lugares mais pobres do Brasil e chamado de A Cidade do Cérebro, onde tudo está interligado, junto, sem barreiras, sem divisões. “As universidades não podem mais ter departamentos que não falam entre si. O cérebro não funciona assim. Então, vale a pena criar estruturas que se assemelham ao funcionamento do cérebro”, explicou.
Durante o encontro de cerca de uma hora e meia, uma plateia atenta ouviu as opiniões de Nicolelis. E um dos temas preferidos do neurocientista foi a questão da doação financeira às instituições de ensino superior, assunto que começa a ser alvo de maior debate no Brasil, já tendo sido, inclusive, motivo de projeto elaborado recentemente pela OAB-SP e entregue ao Ministério da Educação.
O idealizador da Cidade do Cérebro é um ferrenho defensor das doações e extremamente crítico com a burocracia que emperra a prática no Brasil. “Se eu tentar botar o nome da minha avó no teatro da USP, provavelmente morro antes”, afirma, ironicamente.
Morando há mais de 20 anos nos Estados Unidos, Nicolelis acredita que é uma questão cultural que faz com que as doações sejam abundantes no país norte-americano. “Acho que tem a ver com a relação cultural que temos com o dinheiro. Nos Estados Unidos, os ricos acham que o dinheiro é a chance de entrar para a imortalidade, as pessoas querem associar seu nome a uma descoberta de repercussão. Essa é a ideia do americano que tem posse.”
No Brasil, na opinião dele, acontece exatamente o contrário. “Aqui, a relação com o dinheiro é outra, os ricos acham que vão morrer e levar o dinheiro com eles”, argumentou, arrancando risos do público. Nicolelis também reconhece que a questão do incentivo fiscal é importante, mas acima de tudo considera o fator cultural um diferencial. “A elite americana valoriza mais uma educação universitária de alto nível como legado para os seus filhos. Já a academia brasileira não é aberta à sociedade. Quando isso acontecer, o Brasil mudará”.
Mudança, aliás, é algo que o neurocientista acredita ser necessário para a evolução do ensino superior brasileiro, particularmente da ciência. “A universidade tem de se reestruturar para atrair os jovens, temos de criar mecanismos para acelerar a formação de cientistas. Nossas instituições não acompanham a velocidade das mudanças.” Para ele, os jovens cientistas precisam ter mais apoio, inclusive para ganhar experiência no exterior ao participar de redes científicas internacionais e com isso obter uma melhor visão de mundo. “O país precisa ajudar mais aqueles que têm talento. O Brasil vai ganhar muito com isso. A gente vai embora do Brasil, mas o Brasil não vai embora conosco.”
Sem esconder sua identificação com o atual governo federal, Miguel Nicolelis reconhece os avanços obtidos nos últimos anos e afirma sentir orgulho em dar palestras ao redor do mundo e ver o reconhecimento que o país começou a ter. “A política científica melhorou muito nos últimos 20 anos, mas ainda não é suficiente. O caminho é bom, está muito bem fundeado, mas nossas ambições devem ser maiores.” O renomado cientista saudou os últimos dados, que informam o grande aumento do número de publicações científicas no Brasil, e credita tal evolução à “diáspora latino-americana” para os Estados Unidos e Europa.
Na opinião dele, o impacto da pesquisa nacional em âmbito internacional ainda é pequeno, com exceção da pesquisa agronômica, que “já é razoável”. “A ciência brasileira está amadurecendo e trilhando esse caminho que não é fácil. O Brasil tem coisas que estão na gênese da ciência mundial, como fonte de alimentos, a maior reserva de biodiversidade, e a possibilidade de se tornar livre do óleo com as energias alternativas.”
Miguel Nicolelis fala com propriedade. Afinal, não é pouco ser o homem que desenvolveu o que está sendo chamado de interface cérebro-máquina, ou seja, o desprendimento do cérebro do limite funcional do corpo. “O cérebro se libertou do corpo”, anuncia.
A técnica criada pelo neurocientista brasileiro foi citada na edição de junho da revista Popular Mechanics como uma das 25 invenções que mudarão o mundo. Uma experiência com a nova técnica fez com que estímulos elétricos do sistema neuromotor de uma macaca nos Estados Unidos comandassem os passos de um robô no Japão. Agora, a próxima etapa é testar o caminho inverso: verificar se o cérebro é capaz de interpretar os sinais reemitidos pelo computador. Se for comprovada a hipótese de que o cérebro é capaz de reconhecer e responder aos estímulos do computador, o benefício para a saúde e qualidade de vida humana será imenso.
Segundo Nicolelis, num prazo de aproximadamente cinco anos ele planeja criar, em cooperação com vários laboratórios do mundo, uma veste robótica para pessoas que perderam os movimentos em decorrência de lesões severas na medula espinhal. A ideia é que os estímulos motores-cerebrais do paciente possam controlar uma prótese mecânica, restaurando a mobilidade.
Além da possibilidade de ajudar pessoas que precisem de prótese, a interface cérebro-máquina pode influenciar também na pesquisa espacial. Ao explicar a incapacidade do corpo humano de resistir às demandas físicas de uma viagem no cosmos, Nicolelis considera factível a alternativa de enviar a Marte, por exemplo, uma máquina que represente o pensamento humano. “Poderá ser possível o homem ter sua presença emitida a distância. Descobrir como o cérebro funciona é um projeto para toda a humanidade. A ciência não é de ninguém, é da humanidade”, diz ele.
Como costuma acontecer em debates científicos que abordam temas de grande amplidão, capazes de revolucionar a existência do homem e até mesmo da própria criação, Miguel Nicolelis falou inclusive de Deus. Para ele, a necessidade de explicar de onde viemos é algo intrínseco ao ser humano. Bem humorado, não polemizou ao responder se acredita ou não em Deus. “É a tal história de que tem de ter um começo, um início. Para uns é religião, para outros é ciência, e para outros é o Palmeiras”, respondeu o fanático torcedor-cientista, arrancando risos da plateia.
Um dos maiores neurocientistas do mundo é também um homem emotivo. Foram várias as citações às crianças pobres que participam de seu instituto na cidade de Natal. Crianças que, em sua opinião, auxiliam na formação do país quando recebem oportunidades de aprendizado. “Lá, elas não são problema. Lá, elas são a solução.” Sobre o perfil do bom cientista, ele surpreende. “Os grandes cientistas que encontrei são pessoas diferentes, não são os que têm a melhor nota ou são certinhos. Olham as coisas de uma maneira diferente.”
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